Os trilhos da Estrada de Ferro Pedro II, depois Estrada de Ferro Central do Brasil, têm profunda ligação com minha família materna, pois foi por seu trajeto que meus antepassados e parentes migraram e se deslocaram entre os séculos XIX e XX. Essas migrações começaram na vila de Nossa Senhora da Piedade do Iguaçu, que teve sua origem em um povoamento do século XVII e foi elevada à categoria de freguesia em 1750, durante a gestão do Marquês de Pombal (1699-1782). Nessa vila, hoje conhecida como Iguaçu Velho, se casaram meus pentavós Francisco Gomes Pereira e Inácia Angélica de Moraes, fundadores do núcleo Gomes de Moraes.
Aos sete dias do mês de junho de mil setecentos e noventa, nesta matriz de Nossa Senhora da Piedade do Aguassu, pelas onze horas da manhã, com provisão do muito reverendo juiz de casamentos, tendo precedido as três canônicas denunciações e observados os requisitos do Sagrado Concílio Tridentino e constituições do bispado, em minha presença e das testemunhas abaixo assinadas se receberam em matrimônio por palavras de presente Francisco Gomes Pereira, filho legítimo de João Pinheiro de Souza e de Paula Pereira Monteiro, com Inácia Angélica de Moraes, filha legítima de Antônio Pereira Soares e de Maria Tereza de Moraes: foram testemunhas o capitão Inácio de Souza Werneck e José Lopes Sampaio, do que fiz este assento.
Na segunda metade do século XIX, a vila acabou sendo abandonada devido a várias epidemias e à abertura da já citada Estrada de Ferro D. Pedro II, cujo trajeto cortava o arraial de Maxambomba, o qual depois veio a se chamar Nova Iguaçu.

Além do núcleo Gomes de Moraes de Iguaçu Velho, meu ramo materno se compõe também do núcleo Pereira Belém, este oriundo de Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica, com presença também nas freguesias de São Pedro e São Paulo do Ribeirão das Lages e de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu, depois Queimados. Em Bananal viveu o português Francisco Antônio Pereira de Faria (1746-1833), patriarca desse núcleo, que no Brasil passou a assinar Francisco Antônio Pereira Belém. Dele descenderia Joaquina da Conceição, mãe de meu bisavô João Pereira Belém.
Pois foi entre Seropédica, Paracambi, Queimados ou Austin e finalmente Nova Iguaçu que se deslocaram meus antepassados Pereira Belém entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. O registro matrimonial de meu tio-avô Adriano reúne três dessas localidades que, à exceção de Bananal, eram atendidas pela Estrada de Ferro Pedro II, que depois da Proclamação da República passou a se chamar Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB).
[…] Adriano Pereira Belém e dona Isaltina Vieira da Silva, ambos brasileiros, naturais deste estado, residentes neste distrito, de cor parda. Ele operário, nascido em Bananal de Itaguaí, aos dois dias do mês de março do ano de mil oitocentos e noventa e sete, contando nesta data vinte e nove anos de idade, filho legítimo de João Pereira Belém e Dona Teodora Maria da Conceição, ambos brasileiros, o primeiro já falecido em Queimados, município de Nova Iguaçu, no ano de mil novecentos e vinte e dois; a segunda residente em Nova Iguaçu, contanto nesta data sessenta e quatro anos de idade. […]
O seguinte trecho do registro de casamento de minha tia-avó Esmeralda menciona a localidade de Austin, onde os Pereira Belém estiveram por algum tempo antes de se fixarem em Nova Iguaçu.
[Esmeralda Pereira Belém] vinte e três anos de idade, nascida em vinte e três de agosto de mil novecentos e três, solteira, doméstica, filha legítima de João Pereira Belém, falecido em vinte e três de outubro de mil novecentos e vinte e um, e de Dona Teodora Maria da Conceição, brasileira, residente com a nubente em Austin, neste distrito […]
Meu avô Enéas Pereira Belém (1888-1970), batizado provavelmente em Bananal de Itaguaí e falecido em Nova Iguaçu, trabalhou por muitos anos na prefeitura de Nilópolis, outro município por onde passava a EFCB. Nesse município também viveu sua filha e minha tia Neusa (1927-2014), que foi funcionária da mesma prefeitura por longos anos até se aposentar e voltar a residir em Nova Iguaçu já na segunda metade do século XX. Nesse mesmo período, minha prima materna Lu, filha de uma irmã de Neusa que era também minha madrinha, mudou-se para o Méier, bairro da cidade do Rio de Janeiro atendido pelos trilhos da EFCB, onde viveu por alguns anos antes de se mudar para o bairro da Tijuca e depois também voltar para Nova Iguaçu.
Encerro este relato com uma nota de humor pela lembrança de um causo que minha mãe contou: ela e sua irmã Lourdes (1914-1989), mais velha 17 anos, costumavam ir de trem para se divertir na capital. Na época, o trem deveria ser um meio de transporte muito popular, razão pela qual elas encontravam os vagões cheios. Como não recebessem dos cavalheiros a gentileza de um lugar cedido para irem sentadas, tia Lourdes costumava dizer: “olha, Landa, estão todos grávidos“, o que talvez surtisse algum resultado pelo ridículo da exposição da má vontade dos senhores passageiros.
José Araújo é genealogista.