A existência de poucas fontes de informação não deveria ser impedimento para contarmos as histórias de vida de nossos antepassados. Frequentemente, conforme se avança pelos séculos, a tendência é mesmo que se encontrem poucas fontes e fontes esparsas que parecem não dizer muita coisa. Mas, se nos dispusermos a lê-las nas minúcias, no detalhe, talvez possamos, sim, contar uma história coerente. Mas para isso será certamente necessário recorrer ao conhecimento histórico e geográfico e eventualmente até aos registros das vidas de seus contemporâneos. É essa a proposta deste texto, em que reconstruo a vida de Antônia Rodrigues Sardinha.

Em 23 de abril de 1622, Antônia prestou depoimento no Rio de Janeiro para o processo de beatificação do padre José de Anchieta. Na ocasião, ela declarou ter 61 anos, o que nos permite estimar que ela havia nascido por volta de 1560. E declarou também ser natural de Porto Seguro, o que pode significar que ela nascera ou na vila sede da capitania homônima ou na vila de Santa Cruz Cabrália, que também pertencia à dita capitania. Nesse depoimento, ela alegou conhecer o padre há mais de 40 anos e revelou que ele era amigo de seu pai Duarte Nunes, que sabemos ter sido um cristão-novo por duas denúncias que sofreu durante a primeira visitação do Santo Ofício à Bahia em 1591.

Ela segue, então, para relatar um suposto milagre de Anchieta que teria ocorrido em sua casa “no Engenho d’El Rei”. Esse engenho era provavelmente o grande engenho de Pirajá, que foi estabelecido dentro da Bahia de Todos os Santos, na capitania de mesmo nome, por carta-alvará de 5 de outubro de 1555 e se tornou o primeiro engenho público do Brasil. Em 1570, quando anunciava o término da construção desse engenho, o governador-geral Mem de Sá declarou que a produção local chegava a 500 arrobas. Ela aumentaria para 650 arrobas dez anos depois, atestando a capacidade produtiva do empreendimento.

Antônia não declara que seu pai Duarte Nunes também vivia no engenho, mas não deixa dúvida de que era lá a residência dela. Na época do milagre, ela deveria ter idade suficiente para cuidar dos afazeres domésticos, pois informa que Anchieta costumava ir a sua casa fazer refeições e sugere que ele gostava de sua talhada de abóbora. E mais: o suposto milagre diz respeito a talhadas de abóbora que ele não poderia provar porque “[ela] as não tinha feito”. Deve ser seguro imaginar que estejamos falando de uma Antônia adulta.

Anchieta deve ter conhecido nossa personagem desde a infância, pois sabemos que ele se encontrava pela região por volta de 1565 em função de uma carta sua de 9 de julho daquele ano e que foi escrita em Salvador, então capital colonial, após partir da recêm-fundada cidade do Rio de Janeiro em 31 de março. Em agosto de 1566, quando o padre foi ordenado sacerdote na Bahia, Antônia teria 4 ou 5 anos e talvez não tivesse recordação de tê-lo conhecido. Mas ele poderia já manter amizade com seu pai, a qual também parece ter-se estendido a ela alguns anos depois.

Entre 1570 e 1573, o padre foi reitor do Colégio dos Jesuítas do Rio, o que marca uma das residências mais firmemente estabelecidas de sua biografia. A partir de 1573, ele se deslocou pelas capitanias do Sul até se tornar Provincial da Companhia de Jesus no Brasil em 1577. Nesse cargo, que era o máximo dentro de sua ordem religiosa, Anchieta deslocou-se entre a Bahia, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente e talvez possamos localizar nesse período o momento do suposto milagre narrado por Antônia.

Se levarmos em consideração que na época as moças poderiam se casar a partir dos 14 anos, Antônia poderia já estar vivendo com seu primeiro marido, o também cristão-novo português Rui Dias Bravo, quando tinha sua casa no engenho de Pirajá. E ela poderia já ser mãe de Branca do Porto ou de Miguel Gomes Bravo, filhos do casal que, segundo uma tradição antiga, receberam os prenomes da avó e do avô paternos, respectivamente, e depois passaram a usar também seus sobrenomes. Essas estimativas parecem estar coerentes com sua afirmação, no depoimento de 1622, de que conhecia o padre “há mais de 40 anos”.

Duarte Nunes, pai de Antônia, deveria já ser falecido quando começaram no Rio de Janeiro os depoimentos do processo anchietano em 1602, pois a única menção feita a seu nome está no depoimento de Antônia. Sabemos, no entanto, que ele também viveu na cidade, pois, em 1594, um escrivão foi à Praia de Nossa Senhora do Ó e requereu a ele para estar presente à medição e partilhas de terras entre o Colégio de Jesus, o Mosteiro de Nossa Senhora do Carmo e Manoel dos Rios – de quem se tratará adiante.

Da vida de Duarte antes da chegada ao Rio de Janeiro temos apenas evidências pelas denúncias feitas ao Santo Ofício em 1591 e referentes a eventos ocorridos cerca de dez anos antes. Em um dos depoimentos, informa-se que “[…] Duarte Nunes, cristão-novo, [era] lavrador […]”, mas isso não nos permite deduzir que ele também o fosse no engenho d’El Rei onde vivia sua filha Antônia. Em outro trecho, sabemos que com ele viviam “[…] o escrivão Pedro Neto e o meirinho Domingos Nunes […]”, respectivamente seu genro e seu filho.

Pelo exposto, sabemos que seu genro e seu filho ocupavam cargos administrativos e que Duarte tinha outra filha adulta já casada cujo nome desconhecemos. O filho Domingos deveria ser já um homem de 20 e poucos anos, talvez mais, o que nos daria um nascimento próximo e anterior ao de sua irmã Antônia. Não sabemos onde Domingos nasceu, por isso não podemos estimar onde nem quando se deu o casamento de seus pais. Sabemos apenas que ele era já falecido em 1616, quando sua filha Maria da Cunha se casou no Rio de Janeiro.

As acusações feitas contra Duarte, Domingos e Pedro os colocam em duas localidades baianas da capitania de Porto Seguro, onde nasceu Antônia: a vila de mesmo nome e a vila de Santa Cruz Cabrália, que não ficam distantes uma da outra. É o que lemos nos registros do Santo Ofício em depoimento de 24 de agosto de 1591:

[…] haverá cinco anos, pouco mais ou menos [i.e. ca. 1586], que na dita vila de Porto Seguro passou uma excomunhão de parte [parte] o padre Gaspar Dias, ouvidor da [vara] contra Gaspar Casado, capitão da dita capitania, e Duarte Nunes, cristão-novo, lavrador que ora é morador nas capitanias da administração nesta costa, e contra seu genro Pero Neto e seu filho Domingos Nunes, moradores ora com o mesmo Duarte Nunes, por se levantarem contra o dito padre ouvidor da [vara] e o quererem matar e, depois de assim publicada a dita excomunhão, de participantes ouviu dizer ele testemunha geralmente que os ditos excomungados não obedeciam a dita excomunhão […]

No mesmo depoimento, lemos que:

[…] E denunciou mais que haverá quatro anos, pouco mais ou menos [i.e. ca. 1587], que na mesma capitania, na povoação de Santa Cruz, estando para dizer a missa, o vigário Francisco da Silva, já com a [alva] vestida dentro da igreja, vieram a ter com ele palavras os ditos capitão Gaspar Curado, e Duarte Nunes e o escrivão Pero Neto e o meirinho Domingos Nunes, por o dito vigário não querer dizer missa enquanto o dito capitão não mandava retirar fora da capela-mor uma cadeira de espaldas em que ele estava sentado e que se saísse ele também para fora da capela dizendo que, conforme a constituição do prelado, corria em excomunhão […]

Se pudermos dar fé aos depoimentos, temos dois núcleos da mesma família estabelecidos em duas regiões baianas: Duarte, o filho Domingos e o genro Pedro em Porto Seguro e Cabrália desde antes de 1560 e até depois de 1587, mas bem antes de 1594; Antônia e provavelmente o marido Rui Dias e os filhos no Recôncavo da Bahia de Todos os Santos por volta de 1577 – mas até cerca de 1588-1589, conforme análise seguinte. Duarte é identificado como lavrador e talvez Rui, vivendo no engenho de Pirajá, também fosse, mas é possível que este se dedicasse mais especificamente à produção e ao comércio açucareiro transatlântico.

Retomando o depoimento de Antônia, precisamos levar em conta que ela declara ter conhecido o padre Anchieta “no Espírito Santo”. Nessa capitania, o padre instalou-se numa taba em Reritiba em 14 de agosto de 1579, o que deu origem a um povoamento local. Entre 1580 e 1592, Anchieta dedicou-se com maior ênfase à catequização nas missões capixabas e passou a percorrer diversos aldeamentos locais. Não sabemos por que razão, mas parece que a família de Duarte Nunes se deslocou para essa capitania antes de se estabelecer no Rio de Janeiro. Nessa época também ocorreu o falecimento de Rui Dias Bravo, como descobrimos pelo depoimento de seu sobrinho Álvaro Gomes Bravo ao tribunal inquisitorial de Coimbra, em janeiro de 1619:

Aos sete dias do mês de janeiro de mil e seiscentos e dezenove anos em Coimbra; no oratório da Santa Inquisição; estando aí […] Gaspar Borges de Azevedo, deputado do Santo Ofício; em audiência da tarde pareceu perante ele, sendo chamado, Álvaro Gomes Bravo, preso nos cárceres do Santo Ofício; […] disse que se chamava Álvaro Gomes Bravo, meio cristão-novo, de idade de trinta e três anos […] Seu pai se chamava Hércules Bravo […] e sua mãe Margarida Dinis […] e seus avós paternos, Miguel Gomes Bravo e sua mulher Branca do Porto […] irmãos de seu pai […] e que Rui Dias morreu haverá trinta anos, pouco mais ou menos [i.e. ca. 1589], no Brasil, e que lhe parece que foi casado […]

Trecho do depoimento de Álvaro Gomes Bravo

Antônia pode ter chegado viúva ao Rio de Janeiro, pois nessa cidade contraiu segundas núpcias com o já citado cidadão Manoel dos Rios, provavelmente natural do Porto, e com ele teve uma filha chamada Isabel dos Rios, a qual, segundo já citada tradição, recebeu o nome da avó paterna. Estimando um casamento do costume com cerca de 14 anos e considerando as datas de batismo de suas filhas mais velhas, acredito que Isabel tenha nascido por volta de 1600, pelo que suponho que Antônia tenha permanecido viúva por alguns anos antes de conhecer Manoel dos Rios.

É também por sua única filha com Manoel que temos informação do falecimento de Antônia Rodrigues Sardinha. Em 30 de dezembro de 1632, Isabel passou escritura de quitação a seu pai Manoel, já casado com Catarina de Sampaio, da parte que lhe coube da herança de sua mãe. Em dez de setembro de 1627, na ocasião de mais uma série de depoimentos para o processo anchietano, o Notário Constantino Rebelo declarou que algumas pessoas haviam morrido e outras estavam ausentes, entre elas uma Antônia Rodrigues que bem poderia ser nossa personagem. Ela poderia estar fora da cidade e/ou doente, mas isso nos dá uma ideia de quando desaparecem as pistas sobre ela – i.e. o período de cinco anos entre 1627 e 1632.

Antônia deve ter falecido com cerca de 70 anos de idade depois de uma vida de muitas tribulações e até algum milagre.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista