Fiz as fotografias que ilustram este texto em junho de 2025, quando estive na exposição Afro-brasilidade, realizada pela FGV Arte no Rio de Janeiro. Nelas destacam-se as figas, objetos com os quais convivi durante a infância e dos quais ainda tenho memórias, em especial de uma pequena, de madeira clara. Não me lembro por que havia figas em casa, mas tenho uma vaga recordação de que teriam algo a ver com proteção. A presença das figas em uma exposição cujo tema diz respeito a um dos elementos mais importantes da brasilidade poderia sugerir que elas guardam uma relação íntima com nossas matrizes africanas. Mas seria isso mesmo?

Perceba que eu não mencionei religiões de matriz africana, afinal minha mãe – que tinha ascendência em pessoas que haviam sido escravizadas – era católica e nunca demonstrou nenhuma ligação a essas religiões. Então, talvez esses amuletos de proteção pudessem ter origem em outra cultura. Isso me levou a fazer um breve inquérito entre familiares e amigos e uma busca de informações sobre o assunto. Segundo as fontes, o gesto de que o amuleto seria representante – e que se chamava manus fica – já era usado na Roma antiga durante uma cerimônia anual destinada a afastar espíritos malignos e assustadores. Os gregos antigos, por sua vez, usavam o amuleto ao redor do pescoço para afastar o mau-olhado.
Em sua essência, a manus fica era ligeiramente obscena e assim destinada a confundir ou insultar a potência maléfica, protegendo quem fazia o gesto ou usava o amuleto representativo. O significado parece ter-se mantido até os tempos atuais, ainda que suas origens pagãs tenham incitado a rejeição da religião católica, especialmente na Península Ibérica, onde a figa foi muito difundida. A Igreja proibia, perseguia, mas as pessoas, no âmbito privado, continuavam usando, pois fazia sentido para elas. Em Portugal, matriz de nossa cultura pela colonização, elas eram carregadas como amuletos pessoais, penduradas no pescoço, em rosários, correntes e objetos infantis.
Algumas das pessoas que responderam meu inquérito, por sinal, lembraram-se de que era costume dar figas aos bebês, como declarou uma amiga, cuja mãe nascera em Portugal.
Minha mãe tinha uma figa de madeira na parede. Para mim, nunca significou algo; acho que era apenas um enfeite. Lembro ainda que minha mãe tinha uma pulseira de ouro com um pingente na forma de uma figa (balangandã para ela) e ela dizia que era para dar sorte. Lembrei agora que ela costumava presentear os recém-nascidos com uma [figuinha] de ouro para usar numa pulseirinha.
Já de uma prima de primeiro grau recebi este relato de mesmo valor:
Mamãe tinha uma figa, presa com uma fitinha, que prendia na gente quando éramos bebês. Sei disso porque vi ela fazer com o [irmão] e perguntei uma vez para o que era. Ela dizia que era para proteção.
Outra prima, esta de segundo grau, trouxe uma revelação curiosa a respeito de seu pai, que tinha ascendência portuguesa, e que tanto possuía o amuleto quanto usava o gesto original no que parece ser uma permanência de seu valor da antiguidade.
Meu pai tinha uma [figa] de madeira, acho que ficava atrás da porta. E quando ia alguém que ele não gostava lá em casa, ele ficava fazendo figa com a mão.
No Brasil, esse amuleto de proteção foi apropriado pelos africanos e seus descendentes. Os que haviam se tornado vítimas do tráfico transatlântico costumavam trazer consigo objetos para proteção do corpo, afinal, eles não sabiam o que lhes esperava do outro lado do Atlântico se sobrevivessem à travessia. Durante as escavações no Cais do Valongo, no centro do Rio de Janeiro, por onde estima-se que desembarcaram mais de 500 mil escravizados, foram encontrados alguns desses objetos, entre eles as figas, que o tráfico já deveria ter levado às costas da África nas caravelas. Parte desses achados está em exposição no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab) há alguns anos.
Uma amiga que participou do inquérito demonstrou desconhecer a origem mais remota do amuleto, mas conhecia a apropriação posterior que ele sofreu no Brasil.
Figa, acho que pingente de ouro para colocar em cordão, mas em casa não, até pq figa não “combina” com ambiente de católicos. Figa não é um amuleto de sorte de religiões afros?
Nas residências, os relatos foram de figas de materiais diversos que ficavam atrás da porta, embora uma amiga tenha declarado que “não eram ostentadas na sala”, o que talvez pudesse significar que se tratava de algo da crença familiar que se tentava manter afastado dos olhares e do julgamento alheio em uma cultura ainda altamente influenciada pelos preconceitos religiosos.
Mas o que para alguns poderia representar a possibilidade de julgamentos e preconceitos em outros contextos se tornou material para mais apropriações, como revelou uma amiga que trabalhou por anos para uma famosa rede de joalherias.
A tradição da figa era tão forte que, nos anos 90, a [rede] dava de brinde uma figa a todos turistas que chegavam no Rio, como símbolo de boa sorte. Semana passada, arrumando minhas coisas, achei umas figuinhas dessas, de jacarandá.
É interessante saber que um antigo gesto de proteção contra espíritos malignos e más intenções foi objetificado em um amuleto que tem atravessado os milênios mantendo seu valor original dentro das vidas e dos lares de famílias de ascendências tão diversas apesar das perseguições e de alguma intolerância religiosa.
Em minha casa, para finalizar, creio que o amuleto possa ser explicado pela influência portuguesa, afinal, meus avós paternos e alguns de meus trisavós eram portugueses que vieram para o Brasil entre os séculos XIX e XX.
José Araújo é genealogista.