Onomástica é o campo da Linguística dedicado ao estudo dos nomes próprios de lugares (toponímia) ou de pessoas (antroponímia), abrangendo suas origens, etimologia, classificação, transformações e aspectos sócio-históricos. O conhecimento desse campo é de vital importância na pesquisa genealógica, pois ele agrega um potencial preditivo que auxilia na construção de hipóteses nos incontáveis casos em que as fontes documentais são escassas ou inexistentes.

Apenas para abrir a discussão, cito o caso de um cliente que busca descobrir a identidade de seu pai biológico. O relato que ele recebeu e me repassou no início da investigação foi de que esse pai seria um homem de origem maranhense. O cliente fez um teste de DNA autossômico e pude encontrar evidências de que o relato poderia ser verídico ao observar que os matches não maternos apresentados pela plataforma do teste tinham sobrenomes frequentes em famílias nordestinas de origens coloniais.

Um aspecto histórico que precisa ser reconhecido de início é o de que o costume atual de registrar os filhos com nome e sobrenome não existia nos séculos passados. Quando os registros vitais de nascimento eram ainda feitos na Igreja, as crianças batizadas recebiam apenas um prenome. A escolha desse prenome podia refletir o santo de devoção da família, o santo do dia de nascimento ou o nome de um antepassado direto, geralmente um avô ou avó. Minha tetravó materna, por exemplo, faleceu com o nome de Maria Teresa da Paz (1791-1855), mas em seu batismo recebeu apenas o nome Maria, como se lê na transcrição abaixo.

Aos três dias do mês de fevereiro de mil setecentos e noventa e um ano, na capela de Belém, filial de Sacra Família, o ver. Antônio Ferreira Coelho batizou solenemente a Maria, que nasceu aos vinte e quatro próximo passado, filha legítima de Francisco Gomes Pereira e de sua mulher Inácia Angélica de Moraes. Foram padrinhos o Guarda-Mor Geral Fernando Dias Paes Leme da Câmara e sua mulher D. Francisca Peregrina de Souza e Melo, desta freguesia.

A escolha do nome parcialmente devocional de Maria Teresa da Paz pode ter duas explicações: a primeira por sua avó materna ser chamada Maria Teresa de Jesus de Moraes, e a segunda talvez por Nossa Senhora da Paz, uma das invocações da Virgem Maria, ser a santa de devoção de sua mãe ou dela mesma.

Em outro ramo de minha família materna, a seleção dos nomes de batismos dos filhos entre os nomes dos (bis)avós paternos e maternos fica evidente no gráfico exibido a seguir.

Nomes herdados dos avós e bisavós

À medida que a pesquisa avança pelos séculos até os tempos do Brasil colônia, surge a possibilidade de existir um ancestral indígena. Nesse cenário, é mais comum que a identidade originária desse ancestral seja comprovada se ele foi uma figura de destaque como Arariboia ou Tibiriçá, do qual descendo pelo ramo de minha tetravó Maria Teresa da Paz. Embora ambos esses líderes indígenas tenham sido batizados com o nome português Martim Afonso, percebe-se que seus nomes originais não sofreram apagamento por razões que aqui não cabe explicar. Há casos, no entanto, em que a identidade indígena de uma ancestral pode ter permanecido desconhecida por séculos e que só agora ela pode ser comprovada graças aos testes de DNA mitocondrial (mtDNA). Assim foi com minha ancestral Felipa Vicente (1542-1627), a quem a genealogia tradicional – a Genealogia Paulistana, de Silva Leme – atribuía uma origem europeia, mas o teste de mtDNA de uma descendente direta revelou o haplogrupo A, de origem ameríndia.

Ainda sobre os nomes indígenas, podemos mencionar um fenômeno que se identifica entre o pós-independência (1822), o movimento modernista da década de 1920 e o Estado Novo (1937–1945) de Getúlio Vargas. Nesses momentos, houve grande interesse no resgate, ainda que muito romantizado, das raízes da nação, mais especificamente do elemento indígena e de sua cultura. Nesses contextos, muitas famílias passaram a registrar seus filhos com nomes indígenas (tupi) como Cauã, Iara (Yara), Iracema, Jaci (Jacy), Jandira, Jurema, Moacir (Moacyr), Moema, Peri e Ubirajara. Desde já se esclarece que a escolha de um desses nomes para registro de um filho não implica, por si só, a existência de ancestralidade indígena – algo que apenas a pesquisa documental ou genética poderia confirmar.

O entendimento sobre como funcionavam os sobrenomes é igualmente relevante na pesquisa genealógica. A primeira informação que precisa ser registrada é que o sobrenome familiar era escolhido no crisma, sacramento que confirmava o batismo, por volta dos 14 anos. Em geral, os rapazes seguiam com o sobrenome paterno e as moças, com o materno, mas havia exceções. Meu trisavô materno Pedro Gomes de Moraes, por exemplo, era filho de Joaquim Francisco do Rego, sendo Gomes e Moraes provenientes de sua linhagem materna. As moças poderiam ainda adotar um sobrenome devocional como da Conceição, de Jesus, de São José, entre muitos outros. Para tornar a pesquisa ainda mais complexa, não era impossível que a pessoa mudasse o nome durante a vida, como constatei com minha tetravó materna Firmiana Maria de Jesus (1822-1897), que no registro de óbito, feito por meu bisavô Artur, teve seu nome declarado como Firmiana Maria da Conceição.

Nos casos em que havia filhos naturais ou ilegítimos, ou seja, fora do casamento religioso ou civil, era possível que esses filhos seguissem com sobrenomes da família materna, como suspeito ter sido o caso de meu bisavô João Pereira Belém (1848-1921), que era filho de Joaquina da Conceição e do recém-citado Pedro Gomes de Moraes. Minha hipótese é de que Joaquina fosse filha do capitão João Pereira de Faria (1783-1833) e de uma mulher escravizada do plantel dele, que pertencia à família dos fazendeiros escravocratas Pereira Belém. Não consta que Pedro Gomes de Moraes tenha reconhecido a paternidade de meu bisavô João, e nisso se sustenta a hipótese de este último ter seguido com o sobrenome e as relações da família materna, escolhendo mesmo entre membros desta os padrinhos e madrinhas dos filhos que teve com minha bisavó Teodora.

Mesmo na circunstância de ilegitimidade havia exceções, como posso comprovar no caso de meu outro bisavô materno, que em adulto usava o nome de Artur Rabelo Guimarães (1868-1917). Artur era filho de Julinda Dias Seabra e Silva (1843-1884) e mesmo em seu óbito não houve menção do nome de seu pai, mas havia na cidade uma família Rabelo Guimarães de origem portuguesa e grande destaque na sociedade local. O vínculo entre meu bisavô e essa família foi comprovado por meio de um teste de DNA autossômico no qual se revelou um match pertencente a outro ramo dos Rabelo Guimarães que se estabeleceu em outra cidade brasileira. Assim, mesmo diante da impossibilidade de encontrar um registro de perfilhação, deduzi que meu bisavô seria filho de Antônio Rabelo Guimarães (1846-1888), que foi casado e teve filhos com outra mulher na mesma cidade onde viveu meu bisavô Artur.

A existência de antepassados que foram escravizados traz ao menos dois contextos que demandam entendimento. O primeiro deles diz respeito à primeira geração desses antepassados, ou seja, a dos africanos que foram vítima do tráfico transatlântico. É improvável que se descubram eventuais sobrenomes realmente africanos desses antepassados, sendo mais provável que se encontrem designações como Angola, Congo, da Guiné, Malanje e Moçambique, que não devem ser interpretadas como sobrenomes nem como identificações étnicas. Elas são, na verdade, identificações dos portos africanos de onde partiram esses antepassados quando foram transportados como mercadoria para serem vendidos no Brasil. Mas é possível que esses antepassados em algum momento tenham recebido sobrenomes portugueses, como parece ter ocorrido com meu antepassado Estêvão, que aparece nos registros de batismo de seus filhos como Estêvão Gonçalves, sobrenome que parece ter recebido – ou adotado – de Roque Gonçalves, o senhor de quem ele recebeu ou comprou a liberdade.

O segundo contexto diz respeito à segunda geração, ou seja, aos filhos dos africanos. Estes, quando filhos de pais africanos, eram chamados de crioulos, podendo ou não ter um sobrenome identificado nos registros. Caso diferente ocorria quando apenas a mãe era africana e a criança era identificada como parda. Para este segundo contexto trago o caso de meu antepassado Manoel Veloso de Carvalho (1776-?), que nasceu na condição de escravizado e filho de uma mulher identificada como Maria Angola, a qual muito provavelmente foi trazida como mercadoria humana de um porto daquela região da África. Quando tinha cinco anos de idade, Manoel foi libertado por Miguel Veloso de Carvalho (1738-1808), senhor de Maria, que no ato reconheceu também ser pai do menino. Em adulto Manoel seguiu com o sobrenome paterno, que deixava clara sua relação com famílias coloniais antigas na cidade do Rio de Janeiro com sobrenomes como Cordeiro de Peralta, Drummond, Homem da Costa, Machado Barcelos e Muniz Barreto, entre muitos outros.

Para finalizar ainda na questão dos sobrenomes, trago um fenômeno curioso, que chamo de ressurgência. Ele ocorre quando um sobrenome familiar desaparece por algumas gerações, sendo retomado mais tarde por um descendente, caso em que pode ou não ser preservado. Algo assim parece ter ocorrido com Preciosa Maria de Barcelos (1798-?), a filha do recém-citado Manoel Veloso de Carvalho de quem descendo diretamente. O sobrenome Barcelos não parece ter existido no ramo materno dessa mulher, mas era um dos sobrenomes de sua bisavó Inês Muniz Veloso de Barcelos (1714-1777), a qual, por sua vez, parece tê-lo recuperado de seu trisavô Antônio Machado de Barcelos, que viveu na primeira metade dos anos 1600.

Como vimos, os nomes próprios, quando analisados em seu contexto histórico, podem revelar aspectos culturais, padrões familiares, origens geográficas e até relações de parentesco ocultas. O conhecimento da onomástica, combinado com a pesquisa histórica e, mais recentemente, com a Genealogia Genética compõe um tripé de ferramentas extremamente valiosas para a Genealogia.

Obs.: O texto acima contém inúmeras hiperligações que podem e devem ser clicadas para uma leitura detalhada dos exemplos aqui apenas resumidos. Ouça também o podcast associado a este texto:


José Araújo é genealogista.