Felícia

Acordam o visitador do Santo Ofício, o ordinário e assessores, que vistos estes autos, por que se mostra que a ré Felícia Tourinha, que presente está, confessa que, estando presa na cadeia, fez uma sorte de uma tesoura metida em um [chapim] e chamando pelo demônio para saber se lhe havia de sair boa ou má sentença, tendo tenção que o demônio lhe faria a […] sinal, e tendo para si que o poderia saber o demônio – Respeitando-se porém que o demônio por conjecturas poderia saber se sairia boa sentença ou má. E que ela ré então era moça. [Está] tentando-se a do dito ato [só] constar por sua confissão, e do mais não haver que bastasse e a outras mais considerações pias que se tiveram. [Em] tudo […] a ré seja escusada de penitência pública e que nesta mesa faça abjuração de levi, suspeita na fé, e que por tempo de um ano se confesse e comungue de [conselho] de seu confessor nas quatro festas principais do Natal, Páscoa, Espírito Santo e de Nossa Senhora de Agosto, e nas ditas festas reze, em cada uma delas, três vezes o rosário inteiro de Nossa Senhora – e a repreendem e admoestam que se afaste de semelhantes culpas. E a condena somente em dez cruzados para as despesas do Santo Ofício. E que pague as custas. Em Olinda, dada na mesa da visitação do Santo Ofício, aos 9 de junho de junho de 1595 – Heitor Furtado de Mendonça

O texto transcrito é parte do processo número 1268 da Inquisição de Lisboa, arquivado nos arquivos da Torre do Tombo. Ele contém a sentença que foi dada pela mesa do Santo Ofício, em Olinda, Pernambuco, a Felícia Tourinho, 33 anos, acusada de superstição, feitiçaria e pacto com o demônio e presa em 8 de abril de 1595. A sentença, exarada pela mesa quase um mês depois, não foi das piores: abjuração de levi, por suspeita leve na fé; penitências espirituais; repreensão e admoestação para não reincidir nos erros cometidos; condenação no valor de dez cruzados e pagamento das custas.

Felícia era uma mulher parda, como se lê na capa do processo acima, nascida em Porto Seguro, Bahia, filha ilegítima do clérigo Gaspar Tourinho e de Antônia Vaz, preta forra. Os factos pelos quais foi acusada ocorreram quando era solteira, como se lê no trecho transcrito, mas o processo informa que era casada quando o processo foi aberto, portanto a denúncia deve ter ocorrido entre sua libertação e seu casamento com Gaspar de Paiva.

Estevão Gil Tourinho e Beatriz Fernandes Maciel, pais do padre Gaspar e avós paternos de Felícia, eram naturais de Viana do Castelo, Portugal. A família Maciel tinha origem nobre, como se constata no processo de Justificação de Nobreza de Domingos Antunes Maciel de Contreras Ponce de Leon de Zuniga, publicado nos Anais do Museu Histórico Nacional, Vol. XIV, páginas 221 a 265.

Estevão e Beatriz foram também pais de João Tourinho Maciel (1535-?), que se casou no Brasil com Paula Camacho e originou o ramo brasileiro de que descendo e que constitui um dos títulos da Genealogia Paulistana. Esse ramo chega a minha tetravó Maria Tereza da Paz (1791-1855), sobre quem publiquei vários textos aqui. É interessante saber que tive parentes em ambos os lados do Santo Ofício: no dos acusados, como Felícia e Pero do Campo; e no dos acusadores, como já publiquei em outro texto.


José Araújo é genealogista.