Iguassu

Matéria publicada há algumas semanas conta a história de quatro pequenas cidades fluminenses que foram abandonadas no século XIX e cuja existência era conhecida apenas por historiadores e moradores de suas proximidades. Uma dessas cidades era Aguassu ou Iguassu, que teve sua origem em um povoamento do século XVII e foi elevada à categoria de freguesia em 1750, durante a gestão do Marquês de Pombal (1699-1782). O documento que se vê a seguir registra um evento ocorrido quarenta anos antes de Iguassu ser elevada à categoria de vila.

Casamento de Francisco e Inácia – Fonte: FamilySearch

Aqui a transcrição:

Aos sete dias do mês de junho de mil setecentos e noventa, nesta matriz de Nossa Senhora da Piedade do Aguassu, pelas onze horas da manhã, com provisão do muito reverendo juiz de casamentos, tendo precedido as três canônicas denunciações e observados os requisitos do Sagrado Concílio Tridentino e constituições do bispado, em minha presença e das testemunhas abaixo assinadas se receberam em matrimônio por palavras de presente Francisco Gomes Pereira, filho legítimo de João Pinheiro de Souza e de Paula Pereira Monteiro, com Inácia Angélica de Moraes, filha legítima de Antônio Pereira Soares e de Maria Tereza de Moraes: foram testemunhas o capitão Inácio de Souza Werneck e José Lopes Sampaio, do que fiz este assento.

Esse documento registra o casamento de meus pentavós Francisco e Inácia, pais de Maria Tereza da Paz (1791-1855), de quem já tratei aqui algumas vezes. O evento ocorreu na matriz de nossa Senhora da Piedade, que se originou da capela de taipa de mão que o alferes José Dias de Araújo mandou construir em suas terras, na margem direita do Rio Iguaçu, e que ruiu com o tempo. Segundo o historiador Antônio Lacerda de Meneses, a paróquia de invocação à Nossa Senhora da Piedade de Iguaçu, criada em 24 de janeiro de 1755, substituiu a extinta capela, mas também veio a ruir, pois foi construída com a mesma técnica de taipa de mão.

Nova construção iniciou-se cinco anos depois, e sua obra durou 33 anos. Dela hoje resta a torre do campanário, cujo estado lastimável que apresentava até alguns anos atrás não fazia jus à bela vila que se ergueu em seu entorno graças à economia sustentada pela navegação no Rio Iguaçu e em seus afluentes.

Ruínas da Igreja de N S da Piedade – Fonte: Wikipédia

A navegação fluvial existia ali desde o final do século XVI e início do XVII, pelo que havia vários portos e atracadouros por onde fazia-se a integração da região à economia da cidade do Rio de Janeiro e ao mercado atlântico. A produção regular era basicamente destinada ao comércio e o excedente era exportado. Pelo rio também subiam, desde o Porto do Rio de Janeiro, produtos vindos da Europa e de outras partes do Império português em direção à serra, ao Vale do Paraíba, a Minas Gerais e outras localidades do interior. Com o calçamento da Estrada Real do Comércio, houve significativo aumento populacional, o que consolidaria a localidade como “vila-entreposto”, ligando as freguesias e localidades do interior à capital do império.

A prosperidade elevou Aguassu à categoria de vila em 15 de janeiro de 1833. A vila tinha por vizinhas as freguesias de Nossa Senhora do Pilar, de Santo Antônio de Jacutinga, de Nossa Senhora da Conceição do Alferes, de Sacra Família, onde foi batizada Maria Tereza da Paz, e o sertão. A igreja de Nossa Senhora da Piedade foi o centro da vida religiosa do belo arraial-entreposto, onde estima-se que vivessem mais de 2 mil pessoas, entre escravizadas, forras e livres. Segundo observadores da época, no arraial a maior parte das residências possuía telhas, o que é mais um sinal da prosperidade dos habitantes locais.

Mapa de Iguassu Velho – Fonte: Instituto Histórico e Geográfico Itaborahyense

Com a abertura da Estrada de Ferro D. Pedro II, na segunda metade do século XIX, esvaziou-se a importância do transporte fluvial, o que ocasionou a decadência de Iguassu. A sede foi mudada para o arraial de Maxambomba, depois Nova Iguaçu, por onde passava a ferrovia. O antigo arraial passou a ser conhecido como Iguaçu Velho e ficou abandonado por muito tempo, mas tem sido objeto de restaurações com a finalidade de criação de um atrativo turístico. Visitar esse atrativo será uma bela viagem ao tempo e ao local onde viveram meus antepassados.


José Araújo é genealogista.