1922

Entre 13 e 18 de fevereiro de 1922 realizou-se na cidade de São Paulo um evento que representou a primeira manifestação de rompimento com conservadorismo e o academicismo que marcavam a cultura brasileira desde o século XIX e de aproximação à estética inovadora proposta pelas vanguardas europeias. Conhecido como Semana de Arte Moderna, ou Semana de 22, esse evento abarcou dança, música, poesia, pintura e escultura e buscou a apresentação de uma arte mais brasileira.

As principais figuras por trás desse evento foram Tarsila do Amaral (1886-1973), Mário de Andrade (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954). Apesar da coincidência de sobrenomes entre Mario e Oswald, eles não possuíam parentesco imediato. Mas o facto é que tanto eles quanto Tarsila guardavam um grau distante de parentesco entre si, pois, por serem representantes da elite, eles descendiam de figuras há muito estabelecidas nas terras paulistanas e descritas na Genealogia Paulistana de Luiz Gonzaga da Silva Leme (1852 – 1919).

Tarsila do Amaral, das poucas mulheres participantes do evento, descendia do casal Garcia Rodrigues e Isabel Velho, estabelecidos em São Vicente nos primórdios da colonização. Ela descendia também do genro desse casal, o açoriano Antônio Bicudo. Por essa via, além disso, podemos afirmar que Tarsila descendia de cristãos-novos, pois tanto Isabel Velho quanto Antônio Bicudo tinham sangue de cristãos-novos. Tarsila descendia também do casal João do Prado e Felipa Vicente (1542-1622), esta legítima representante dos povos naturais do Brasil.

Abaporu – Tarsila do Amaral

Mário Raul de Moraes de Andrade tinha a mesma ascendência de Tarsila e descendia ainda do casal Baltazar de Moraes d’Antas e Brites Rodrigues Annes, de quem já tratei aqui. Embora se tenha por muito tempo feito a crítica de que a Semana de 1922 fosse um movimento de homens brancos oriundos da elite cafeeira, estudos recentes demonstram que Mário de Andrade tenha, na década seguinte, enquanto diretor do Departamento de Cultura do Município de São Paulo, buscado dar destaque à cultura afro-brasileira.

A Estética de Mário de Andrade | Eduardo Jardim

José Oswald de Sousa Andrade, enfim, também descende do casal Garcia Rodrigues e Isabel Velho, de Antônio Bicudo e ainda de Baltazar de Moraes d’Antas e Brites Rodrigues Annes, pelo que pode ser considerado meu primo distante – apenas não descendo de Antônio Bicudo.

Se o trio de organizadores da Semana de 22 tinha consciência de seu distante parentesco talvez nunca se descubra, mas é curioso que, há exatos 100 anos, três descendentes dos primeiros colonizadores paulistanos tenham deliberadamente buscado romper com o passado e olhar para o futuro, no que causaram grande choque para a sociedade da época e um impacto na cultura brasileira que perdura até hoje.


José Araújo é genealogista.