Mário

A descoberta de um parentesco, ainda que distante, com uma personalidade que admiro é sempre razão de grande alegria para mim. E também costuma ser para os primos com quem compartilho as informações sobre a história de nossa família. Conhecer essa história, em minha opinião, é um direito de todos. Acredito que esse conhecimento pode por vezes ser até terapêutico por trazer luz a questões familiares do presente cujas razões podem se encontrar em um passado remoto.

Porque um ramo de minha família deriva de alguns dos títulos da Genealogia Paulistana de Silva Leme (1852-1919), é quase inevitável que eu descubra parentescos com personalidades das artes e da política nacional. Embora isso seja esperado, é sempre uma surpresa a ser experimentada e reconheço que busco essas descobertas, pois elas reforçam em mim a identidade e o pertencimento à terra onde viveram meus antepassados e seus descendentes.

Uma descoberta recente foi o parentesco distante com um carioca da gema de grande talento musical e dramatúrgico: o compositor e ator Mário Lago (1911-2002). Seu avô materno, o flautista e anarquista Giuseppe Croccia, deve ter tido grande influência em sua inclinação política, pois na idade adulta Mário candidatou-se, por determinação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a deputado estadual pelo Partido Social Trabalhista. Sua atuação política rendeu-lhe sete prisões.

Parecer da censura avaliando a peça “Foru 4 Tiradentes na Conjuração Baiana”, de Mario Lago, 1977. Arquivo Nacional.

Também do avô e certamente do pai – o maestro e violinista Antônio de Pádua Jovita Corrêa do Lago – veio a inclinação artística. Entre 1930 e o começo da década de 1960, Mário criou marchas, choros e sambas em parcerias com outros compositores. Suas criações foram gravadas por cantoras como Carmen Miranda e Gal Costa, entre muitos outros intérpretes. Sua carreira como ator iniciou-se no teatro na década de 1940 e na década de 1960 chegou à televisão, por onde alcançou visibilidade nacional e internacional, visto que as novelas brasileiras, por sua qualidade, foram exportadas para o mundo.

Meu parentesco com Mário deriva do facto de que também ele, por seu ramo paterno, descende de ao menos dois dos títulos da Genealogia Paulistana dos quais eu também descendo por minha tetravó materna Maria Tereza da Paz (1791-1855). Mário Lago era decaneto do cristão-novo espanhol Baltazar de Godoy (1561-1628) e duodecaneto de Baltazar de Moraes de Antas, respectivamente meu undecavô e meu tridecavô. Parentesco bem distante, mas ainda assim relevante para mim e meus primos, que tanto admiramos o ator e compositor.


José Araújo é genealogista.