Alexandre

[…] receberam-se em matrimônio segundo o regime comum os ditos contraentes: o primeiro [João Pereira Belém] com 52 anos de idade, agricultor, filho ilegítimo de Joaquina da Conceição, o segundo com 48 anos de idade, filha ilegítima de Maria Gaspar, ambos naturais do Distrito de Bananal de Iguaçu, digo, Bananal de Itaguaí e domiciliados neste distrito, os quais declararam no mesmo ato que antes do matrimônio tiveram os seguintes filhos: Pedro Pereira Belém, com 21 anos de idade […]

O trecho transcrito acima é do registro de casamento de meus bisavós maternos João Pereira Belém e Theodora Maria da Conceição, realizado em 17 de novembro de de 1900. Nesse registro, eles reconhecem os filhos que haviam tido antes do enlace, e o primeiro deles recebe o mesmo nome do avô paterno: Pedro. O curioso é que meu bisavô João não carregava o sobrenome Gomes de Moraes, da família de seu pai. A hipótese é que ele tenha sido concebido por Pedro Gomes de Moraes e Joaquina da Conceição fora do casamento e nunca tenha sido reconhecido pelo pai, portanto carregava o sobrenome composto da família de sua mãe. Joaquina da Conceição, portanto, deveria ser uma Pereira Belém. Mas a realidade pode ser um pouco mais complexa do que aparenta.

O primeiro indício de complexidade está na relação extramatrimonial mantida entre Maria Tereza da Paz (1791-1855) – a mãe de Pedro Gomes de Moraes – e Pedro Cipriano Pereira Belém (1795-1860), filho do patriarca dos Pereira Belém em Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica. Dessa relação nasceram cinco filhos reconhecidos pelo pai em seu inventário, porém sem menção à mãe, que ainda era casada com o capitão Joaquim Francisco do Rego (1766-1837). Esse relacionamento sugere que havia uma relação muito próxima entre os Pereira Belém e os Gomes de Moraes – a família de Maria Tereza da Paz -, o que pode ter facilitado a aproximação de Pedro e Joaquina da Conceição.

Praticamente não existem registros de Joaquina, mas talvez existam pistas que possam ajudar a entender sua origem. Uma dessas pistas está justamente no assento batismal de meu tio-avô Pedro Pereira Belém (1879-1936), que exibo e transcrevo a seguir.

Batismo de Pedro Pereira Belém

No primeiro dia de novembro de mil oitocentos e setenta e nove, nesta paroquial igreja de Nossa Senhora da Conceição do Bananal batizei solenemente e pus os santos óleos ao inocente Pedro, pardo, fluminense, nascido em vinte e sete de junho do corrente ano, filho natural de Theodora Maria da Conceição, paroquiana desta freguesia. Foi padrinho Alexandre Pereira Belém, solteiro, e Nossa Senhora protetora.

Na primeira vez que li esse assento imaginei que o padrinho Alexandre Pereira Belém poderia ser um rapaz jovem, talvez um irmão ainda não identificado de meu bisavô João, mas essa interpretação caiu por terra quando descobri o assento de óbito que transcrevo a seguir.

Aos onze dias do mês de março de mil e oitocentos e oitenta e sete foi encomendada a alma e se deu sepultura no cemitério público desta freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Bananal do corpo de Alexandre Pereira Belém, preto liberto, brasileiro, com setenta e oito anos presumíveis, solteiro, trabalhador, paroquiano desta freguesia. Faleceu de diarreia em seu domicílio.

O cenário então é de uma criança de cor parda – meu tio-avô Pedro – cujo padrinho era um homem que havia sido escravizado – Alexandre. Ambos carregavam o mesmo sobrenome – Pereira Belém – e provavelmente eram aparentados. Isso pode sugerir que esse sobrenome não tenha chegado a minha família pela via do sangue, ou seja, pela descendência direta, mas sim adquirido via batismo, como era comum ocorrer com pessoas escravizadas que, no batismo, recebiam os sobrenomes de seus proprietários.

Alexandre era um homem idoso quando faleceu, apenas alguns anos depois de haver apadrinhado meu tio-avô Pedro. Teria nascido entre 1808 e 1809. Considerando que meu bisavô João deve ter nascido em 1848, pois tinha 52 anos em 1900, quando se casou, sua mãe Joaquina poderia ter nascido em 1828, cerca de 20 anos após Alexandre, o que o tornaria um bom candidato a pai dela.

O facto de Alexandre ser declarado como solteiro no óbito não invalida a análise, pois o já citado Pedro Cipriano também declarou ser solteiro em seu inventário, apesar dos cinco filhos que teve com Maria Tereza da Paz, mãe de Pedro Gomes de Moraes, cujo relacionamento com Joaquina da Conceição, por fim, pode ter sido mais uma das incontáveis relações entre um escravista e uma escravizada ou ex-escravizada.


José Araújo é genealogista.