Belém

Meu bisavô João Pereira Belém (1848-1921) foi o primeiro de seu ramo paterno a carregar esse sobrenome composto, que pertencia a uma das famílias mais importantes de Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica, no Rio de Janeiro. Era uma família de fazendeiros cujo suposto patriarca teria sido um Francisco Antônio Pereira Belém, que com sua mulher Joana Maria de Jesus (1760-1834) teve sete filhas e quatro filhos. Os descendentes de Francisco Antônio e Joana Maria casaram-se várias vezes com os descendentes do também fazendeiro Antônio Soares da Silva, cuja família materna já estava estabelecida no Brasil desde a primeira metade do século XVII.

O curioso é que numa época em que os filhos costumavam receber os sobrenomes de seus pais – as filhas recebiam os de suas mães ou sobrenomes devocionais – meu bisavô não tenha recebido o de seu pai Pedro Gomes de Moraes (1829-1891). Mas esse facto é explicável: Joaquina da Conceição, a mãe de João, não era casada com Pedro. Suspeito que meu bisavô tenha sido concebido em um relacionamento anterior ao do casamento de Pedro com Maria Pereira Ramos (1835-1885). Minha hipótese, portanto, é que João Pereira Belém tenha recebido o sobrenome da família de sua mãe, o que não é aparente porque esta carregava um justamente um sobrenome devocional.

O Pereira Belém que João legou a meu avô Enéas e este a minha mãe e meus tios maternos teria, segundo o raciocínio apresentado, origem no já citado Francisco Antônio, cuja filiação e origem eram mistérios até recentemente. A solução para esses mistérios demandou uma visita ao Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, onde encontrei o processo de casamento 51.314, de janeiro de 1785. Nesse processo, lê-se que queriam se casar:

Francisco Antônio Pereira, filho legítimo de Francisco Pereira Raízes de Faria, já defunto, e sua mulher Maria Francisca, batizado na freguesia de Santa Maria do Abade, termo de Barcelos, Arcebispado de Braga, com Joana Maria de Jesus, filha legítima de Félix Pereira Barbosa e sua mulher Rita Correa de Jesus, natural e batizada na freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu […]

Esse registro pode ser visto na imagem abaixo:

Processo Matrimonial de Francisco Antônio Pereira e Joana Maria de Jesus

Identificada a filiação de Francisco e seu local de nascimento, pude encontrar seu registro de batismo e descobri que ele nascera em 19 de abril de 1746. Mediante pesquisa nos livros paroquiais de Santa Maria do Abade de Neiva, Portugal, pude avançar quatro gerações a partir do ramo paterno de Francisco, pelo que constatei que sua família tinha raízes em Barcelos até o século XVI pelo menos. Essa pesquisa permitiu-me ainda descobrir que o sobrenome de seu pai era apenas Pereira de Farias, e que o Raízes que consta no processo matrimonial era, na verdade, a localidade onde este havia nascido.

Mas a solução dos antigos mistérios revelou um novo: de onde surgiu o sobrenome composto Pereira Belém que Francisco Antônio legou a seus descendentes, se não há traço dele em sua ascendência mais próxima em Barcelos? Teria pertencido a um antepassado mais remoto? Teria sido adotado depois de seu casamento no Brasil? E, neste caso, por quê?


José Araújo é genealogista.

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