Este texto é o primeiro de uma série que vou chamar de factos da vida para o pesquisador em Genealogia. Nessa série vou retomar algumas questões que sempre geram surpresa ou abrem discussões nos fóruns públicos. Este primeiro texto da série retoma aspectos relacionados às formas de nomeação comuns no Brasil nos séculos passados. Aqui me dedico especificamente aos sobrenomes e seus usos, ao surgimento de sobrenomes inéditos na linha familiar ou supostamente inventados e à continuidade de prenomes ancestrais, que pode apresentar um importante valor preditivo à pesquisa. Usarei alguns exemplos extraídos de minha árvore familiar, mas acredito que qualquer pesquisador encontrará casos similares em sua árvore se ela alcançar, pelo menos, o século XIX.

Como se sabe, no passado os sobrenomes paternos não eram transmitidos aos filhos indistintamente. O sobrenome do pai normalmente era transmitido aos filhos e o da mãe, às filhas. Mas havia exceções: meu bisavô materno, por exemplo, era João Pereira Belém (1848-1921), filho natural de Joaquina da Conceição. O nome de seu pai, revelado apenas nas certidões de dois filhos temporões que teve com minha bisavó Theodora Maria da Conceição, era Pedro Gomes de Moraes. Não há registro de que Pedro e Joaquina tenham se casado, portanto parece lógico que meu bisavô não tenha recebido o sobrenome do pai porque nunca foi reconhecido por ele – outro fator descrito adiante parece ratificar a filiação de João. Mas a questão surpreendente é que meu trisavô Pedro Gomes de Moraes e seu irmão José, filhos legítimos de Joaquim Francisco do Rego (1766-1837), também não receberam o sobrenome do pai. A razão para isso pode estar no maior poder econômico da família de sua mãe Maria Tereza da Paz (1791-1855).

Bastante curiosos são os sobrenomes que parecem ter sido inventados ou ter surgido na família sem razão aparente. O mais notável deles em minha árvore é o de Francisco Antônio Pereira Belém (1746-1834), de quem suspeito descender por meio da já citada Joaquina da Conceição. Francisco nasceu em Portugal e consegui subir quatro gerações por seu ramo paterno e o sobrenome Belém não foi encontrado em nenhum deles. Seu sobrenome original seria Pereira de Faria, o mesmo que passou a um de seus filhos – João Pereira de Faria. A razão para ter mudado o sobrenome é desconhecida. Outro caso curioso é o de Helena Correia de Sá, prima distante e filha de Manoel Vieira Ribeiro (1676-1742) e Luzia Monteiro (1682-?). Em seus ramos paternos e maternos, o sobrenome composto Correia de Sá – de grande importância no Rio de Janeiro colonial – não é encontrado. Suspeito que tenha sido dado – ou por ela adotado na idade adulta – em homenagem a alguém de seu relacionamento familiar.

Processo de casamento de Francisco Antônio Pereira – ACMRJ

Finalmente, podemos falar da herança de prenomes. Era comum no passado que um(a) primogênito(a) recebesse o prenome de seu avô ou avó. O primeiro de meus tios-avós a nascer – Pedro Pereira Belém -, filho de João Pereira Belém e Theodora Maria da Conceição, parece ter recebido o nome de seu avô – o Pedro Gomes de Moraes já mencionado -, o que pode ratificar a filiação de seu pai. Igualmente interessante é o caso de dois dos filhos conhecidos de meu duodecavô Duarte Nunes – Antônia Rodrigues Sardinha e Domingos Nunes Sardinha. Domingos teve ao menos quatro filhos com sua mulher Maria da Cunha. Um deles – Duarte Nunes da Cunha -, talvez o primogênito, parece ter recebido o nome do avô paterno e sobrenomes combinados dos pais. Outros dois – Domingos da Cunha e Maria da Cunha – parecem ter recebido os nomes dos pais e da mãe e apenas o sobrenome da mãe. A última – Antônia Tavares de Oliveira – recebeu nome e sobrenomes de origens desconhecidas, talvez herdados de uma avó materna. A herança do prenome de um tio também era possível se ele fosse alguém da admiração dos pais da criança nomeada, por exemplo. Meu prenome, por exemplo, foi dado em homenagem a um tio – meio-irmão de meu pai – de quem já tratei aqui no blogue.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista